
(Buarcos, 19-10-2008)
“Não sou dona do tempo, nem de nenhuma verdade, a não ser daquilo que sinto. Mas o que sinto está cá dentro, só eu vejo, e mesmo que te explique com todas as palavras do mundo, nunca saberei se me expliquei bem e, caso o tenha feito, se entenderás o que te digo exactamente da forma como te quis dizer, por isso é que às vezes fico calada e espero que o tempo resolva os enigmas mais complexos – ou mais simples – da existência.
Amor é muito mais do que hábito, é sobretudo tempo. E quando se ama, há sempre dúvidas e medos, há sempre uma vontade secreta de outros desejos, de outras vidas, de outras viagens, mas vem o tempo e decide por nós aquilo de que não somos capazes.
Quando se ama alguém tem-se sempre tempo para essa pessoa. E se ela não vem ter connosco, nós esperamos. O verbo esperar torna-se tão imperativo como o verbo respirar. E aprendemos a respirar na espera, a viver nela, afeiçoando-nos a um sonho como se fosse verdade. A vida transforma-se numa estação de comboios e o vento anuncia-nos a chegada antes do alcance do olhar. O amor na espera ensina-nos a ver o futuro, a desejá-lo, a organizar tudo para que ele seja possível. E se calhar é por tudo isso que já aprendi a esperar, confiando à vida tudo o que não sei, ou não posso escolher. É mais fácil esperar do que desistir. É mais fácil desejar do que esquecer. É mais fácil sonhar do que perder. E para quem vive a sonhar, é mais fácil viver.
(…)
Afinal, porque te escrevo este diário, quando sinto a cada dia que passa que não vais voltar? Escrevo porque ninguém ouve, mas quando estas palavras forem impressas e ganharem vida própria, sei que vão chegar a muitas pessoas e serão uma ponte para casais desavindos, amores perdidos, mas nunca esquecidos, namorados que a vida separou mas que ainda se amam, amigos de costas viradas que se entenderão, homens e mulheres, homens e homens, mulheres e mulheres que se amam, mas que ainda não encontraram o mesmo caminho.
São as palavras que ficam por dizer que mais nos pesam, prisioneiras no nosso descontentamento, aos gritos dentro da nossa cabeça. Preciso de as libertar, preciso de lavar a alma e limpar o coração, mesmo que isso signifique pôr uma pedra em cima daquilo que mais amo e desejo. E para me ver livre delas, revelo-me nestas folhas sem pudor, porque já não tenho nada a perder.
(…)
Afinal, se for rigorosa, posso pensar que nunca poderia esperar de ti outra coisa. Andaste meses a esconder da tua namorada a minha existência. Preferes calar a falar, preferes disfarçar a enfrentar, preferes a boa educação à franqueza. Não são defeitos, é o teu feitio. Quando disseste ao teu irmão para não me dizer nada porque não me querias magoar, estavas mais uma vez a condescender, como quando me passavas a mão pelo cabelo como se eu fosse uma boneca ou uma criança – ou as duas coisas – e me dizias don’t give me that look.
Como hei-de olhar para ti agora, depois de tudo o que se passou? Perdi a confiança em ti, porque me mentiste. Já andavas a mentir a outra mulher há muito tempo, por isso, porque é que havia de ser diferente comigo? Se te chamasse cobarde, podias acusar-me de ser dura, mas não me podias acusar de ser injusta, pois não?
Sempre me disseste que sabias que o que sentias por ela não era amor, porque já tinhas sentido amor antes e não era a mesma coisa. No entanto, sempre a quiseste poupar à realidade. Porquê, se não a amavas? O Miguel e o teu irmão, que te conhecem bem, dizem que não está em causa o que sentes por mim, porque me adoras, mas o facto de não podermos construir nada porque vivemos em cidades diferentes e nenhum de nós quer mudar a sua vida pelo outro. Mas o que sentiste por mim também não foi amor, porque se fosse, terias feito alguma coisa por mim, por nós, e tu nunca quiseste ou soubeste fazer grande coisa.
(…)
Os dias continuam a correr devagar; às vezes sinto que te estou a esquecer, outros tenho a certeza que a ferida nunca vai fechar. Às vezes penso que nunca mais serás uma pessoa próxima. Outras vezes, sonho que um dia acordas e escolhes o teu caminho e que esse caminho é aqui, no país do sol, ao meu lado, na casa dos tectos altos e do jardim coberto de alfazemas.
(…)
Já não estou à tua espera, quero apenas ficar quieta. (…) A amizade é o amor sem preço nem prazo de validade, por isso aceito sem reservas e sem mágoa qualquer atitude que ele queira tomar, porque sei que a nossa amizade é eterna e que ele vai voltar, como se nunca se tivesse afastado. (…) Tenho saudades dele como tenho de todas as pessoas que amo, e quando amo alguém tenho saudades todos os dias (…)
Tenho muitas saudades tuas. E saudades do tempo em que confiávamos um no outro e sentíamos que estávamos no mesmo barco, porque mesmo longe, queríamos ajudar, proteger e apoiar o outro em tudo, de uma forma incondicional e total, queríamos amar-nos e dar-nos um ao outro. Mas tenho ainda mais saudades de me sentir cheia de amor por ti. Será que não amamos os outros pelo que são, mas por tudo o que nos fazem sentir?
(…)
Nunca vemos o amor chegar; só o vemos a ir-se embora. Estou numa estação de comboios, sentada num banco de pau, completamente só. Perdi o teu comboio e não quero apanhar nenhum outro. Está frio. Um vento seco e cortante faz com que me encolha como um bicho de conta. Já não há sonho, já não há dádiva, os dias voltaram a ser cinzentos e tristes. Agora são todos iguais, sempre iguais. Trabalho, respiro, durmo e como o melhor que posso e sei, e tento esquecer-te. Deixei de falar de ti e de dizer o teu nome, deixei de o desenhar no espelho da casa de banho, quando o vapor inunda todas as superfícies. Em vez disso, tenho o coração embaciado de dúvidas e o olhar desfocado pelo absurdo do teu silêncio continuado, o olhar de quem aprende a adaptar-se a uma luz desconhecida, a uma nova realidade.
Respeito o teu silêncio porque ainda me sobra uma ponta de orgulho, porque sempre te disse que uma força imensa me empurrava para ti – I will always run to you but never after you, lembras-te?
(…)
Pensei que a amizade e o respeito que sempre sentimos um pelo outro conseguiria levar-nos para outro lugar, ou pelo menos de outra forma, e isso entristece-me profundamente. Por mais que me esforce, é impossível não me sentir decepcionada. E o pior é que se fizeste tudo isto porque achas que desta forma nos conseguiríamos libertar um do outro, quando nos voltarmos a ver, tenho a certeza que ambos vamos sentir na pele que o tempo não sabe nada, o tempo não tem razão, porque ele não cura todos os males nem apaga todas as dores; apenas serve para domar os sentimentos mais fracos e fazer crescer os mais fortes. Por isso e porque sei que não queremos guardar mágoa um ao outro, tento esquecer-te devagar, sem te odiar, porque o ódio também é uma forma desesperada de amar ainda e sempre aqueles que já não podemos ter ao nosso lado.
Não quero nem sei guardar rancor, nem remorso, nem raiva ou censura. Apenas uma dor que ficou no peito, que dói e que dura. O amor, que existe antes e depois de tudo, é uma força poderosa e triste, porque fecha o coração a todos os outros prazeres que ele não pode dar.
A pouco e pouco, com enorme esforço e nenhuma vontade, tento não pensar mais em ti, refugiando-me na ideia de que é sempre muito mais interessante o que escrevemos sobre os homens que amamos do que aquilo que eles são na realidade.
Deixei de imaginar como te podia receber e mimar sempre que voltasses à minha cidade, de me lembrar de lugares mágicos e escondidos, de restaurantes acolhedores e de miradouros românticos, deixei de sonhar com a tua presença na minha vida (…) a tua mão a fechar a minha, os teus braços à minha volta, o teu olhar líquido e triste a nadar dentro do meu. Tudo o que desejo agora é que me saias da pele como as folhas que caem no Outono, e com esse tapete sob meus pés conseguir caminhar sem pisar as pedras.
Como te disse há pouco tempo, num daqueles momentos raros em que baixaste a guarda e me telefonaste, tu escolheste nunca descer do cavalo. Não tive por isso outra escolha senão a de subir a uma torre e por lá ficar a escrever histórias, até que alguém me lance uma escada mágica e me traga ao colo de regresso ao mundo.”
Diário da tua Ausência – Margarida Rebelo Pinto
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Beijinhos e votos de um excelente fim-de-semana…